Preconceito

Eu sou brasileiro. Nasci em um país preconceituoso. Sim, preconceituoso. Muitos falam que aqui todo mundo convive bem, numa boa. Até convive em algum nível, mas o preconceito existe e não é fraco.

Eu, por ter tido a sorte de ter nascido em uma família de classe média, com alguma cultura, branco, homem, heterosexual, alto e com cabelos, passei um bom pedaço da vida sem saber o que era sofrer preconceito. Sabia que havia toda sorte de preconceito com as classes excluídas mas acho que só temos a real noção do que é uma coisa ruim quando passamos por ela.

A primeira vez que sofri preconceito, foi no colégio, por ser estudioso e diferente. Não me encaixava na média e fui marginalizado com os requintes de crueldade que só os adolescentes dão conta de fazer. Foi ruim, foi duro, mas sobrevivi.

Muito mais além, eu descobri o preconceito dos machistas para com os pais separados. Eu me divorciei da mãe das minhas filhas e optei por continuar exercendo a minha paternidade na plenitude após a separação.

Isto foi uma afronta ao modelo machista de criação de filhos.

Filhos, são criados pelas mães no Brasil. Os pais, só ajudam e colaboram. Quem manda nos filhos é a mãe e o pai só acompanha dentro do possível, e dá dinheiro. É isso. Qualquer coisa diferente disto é combatida ferozmente.

Tem exceção? Tem, mas esta é a regra vigente no Brasil.

Mesmo com uma lei que falava que a guarda compartilhada deveria ser adotada em caso de separação, sempre que possível, somente 10% das guardas foram efetivamente declaradas como compartilhadas no Brasil. 95% das guardas unilaterais são exercidas pela mãe.

Com a criação da lei 13.058/14 criou-se a esperança: a guarda compartilhada virou regra. Deveria ser adotada por todos.

Esta esperança está no papel desde 2014 e todos os interessados em ver o fracasso desta lei atuam desde então, com sucesso, em evitar mais de 20 milhões de crianças tenham o correto e devido acesso aos seus filhos de forma equilibrada.

Eu, tal qual centenas de outros pais neste país, entramos com ações na tentativa de reverter as guardas unilaterais. Todos nós temos enfrentado o preconceito e devo admitir aqui que estamos perdendo para os machistas de plantão.

Por machistas, entendo homens e mulheres que perpetuam a diferença entre pessoas determinando quem tem mais ou menos competência para criar nossos filhos. Homens e mulheres pais e mães, psicólogos, procuradores do Ministério Público, advogados e juízes.

Nosso judiciário não é imparcial. Julga pais com uma régua bem diferente da usada para julgar mães.

Eu, como pai solteiro sofro outras formas arteriais de preconceito. Ah, você cozinha? Nossa! Ah, você dá banho nas suas filhas? Parabéns! Nossa, você troca fraldas das suas filhas? Que paizão! Meu Deus, você cuida dos seus filhos? Posso tirar uma foto com você.

Nenhum destes preconceitos acima porém se compara com a enorme injustiça de achar que pai é menos que mãe. Que quem deve determinar o futuro das crianças que você colocou no mundo é um juiz parcial e uma mãe machista que se recusa a fazer o que é melhor para as crianças: as dividir nas alegrias, deveres e tempo.

Não tenho esperanças de ver ao meu tempo um país mais justo e melhor, mas tenho esperança sim, que as minhas meninas um dia crescerão, entenderão a luta pela qual passei, me perdoarão por não ter conseguido mais tempo com elas e eventualmente baterão as asas e irão para um lugar com menos machismo, afinal de contas, elas são mulheres e mulher no Brasil passa por coisas horríveis.

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