O difícil mas doce papel de ser pai separado no Brasil

Eu sou pai de duas meninas lindas, inteligentes, sapecas e muito amorosas, fruto de um longo casamento que eventualmente parou de funcionar.

Eu não fazia ideia do que aconteceria depois do fatídico dia em março de 2013 quando a minha ex-mulher pediu a separação: primeiro veio o choque, depois a tristeza de ter perdido a família e por último comecei a juntar os cacos para recuperar uma relação que estava a perigo: a de pai das meninas.

Inconscientemente, passei a me dedicar a ser um pai melhor. Eu já havia passado por uma infância nada espetacular no que se refere ao quesito afeto e carinho. Meus pais não foram perfeitos, tais quais vários pais que existem, mas eles erraram demais na condução da minha vida como criança. Só fui perceber isso adulto. Decidi que se fosse um dia ser pai, que iria me dedicar mais.

Fiquei muito feliz com a chegada de ambas as meninas. Instintivamente as desejei como meninas e acabou que aconteceu. Fiz meu papel em acompanhar todo o processo e me dediquei como pai quando elas nasceram, mas tinha alguma coisa errada: era o casamento que ia cada vez pior me isolando de tudo e de todos. Acabei me isolando um pouco das meninas.

Com a separação, aconteceu o oposto: passei a me dedicar muito mais por elas e a participar bem do dia a dia delas. Fiz meu dever de casa, li, me aproximei, aprendi a meditar, aprendi a ter paciência com as pessoas e principalmente com as meninas que são delicadas e merecem todo o amor do mundo.

Só que não podia prever que o machismo me atingiria bem no meio: o papel previsto a mim como pai separado era abrir mão da guarda das meninas, mandar dinheiro, visitar nos dias estipulados, não reclamar de nada e eventualmente estar disponível para qualquer necessidade.

Não aceitei tal papel e resolvi buscar o que achava correto não só para as meninas quanto para mim: ser pai de verdade e participar ativamente da vida das meninas.

São 3 anos, 3 anos tentando explicar isso para as pessoas que vivem neste país e dando de cara com uma parede todos os dias. Sofro preconceito tal qual várias pessoas neste país. Entenda: não quero e nem tenho a intenção de comparar o que passo com outras formas de preconceito, afinal eu não passo por outra forma de preconceito que senão ser pai separado.

Dói todos os dias ter de brigar para ter o devido acesso as meninas, tentar ser respeitado, poder participar de decisões fundamentais para o futuro das meninas.

Agora, dói muito menos do que um eventual abandono que nunca farei das fofas.

Um dia, conversando com uma ótima amiga que tenho, falávamos de que não gostávamos do jeito que o Brasil era e que gostaríamos de nascer no Reino Unido numa próxima encarnação. Ela falou que queria ser ruiva. Eu disse que queria nascer na Escócia. De repente parei: mas posso ter exatamente as mesmas filhas que tive? Eu passaria por tudo que passei e passarei de novo se soubesse que teria as filhas que tenho hoje. Elas são perfeitas para mim e não consigo imaginar amor maior na minha vida.

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