Afrânio

Doze anos de profissão. Muito tempo. O ritual era sempre o mesmo. Ficava sentado no banco esperando o momento de ir e executar as suas funções. Conferia todos os equipamentos necessários para o exercício do seu ofício. Dois cartões, caderneta, caneta, relógio e apito.

Precisava rezar. Importante isso. Um juiz de futebol não tem o luxo de poder errar. Aliás pode até não ter o luxo de acertar. Depende da torcida. Ele sabe que tem gente que vai ao estádio somente para beber cerveja e xingar a mãe dele. O jogo pouco interessava.

Ele amarra as chuteiras novamente. Verifica se a blusa está dentro do calção. Olha-se no espelho. Está um pouco mais gordo do quê quando começou a apitar jogos oficiais. Um pouco menos de cabelos, por causa dos aborrecimentos e estresse dentro e fora de campo.

Será que é hoje? Pergunta ele. Será que hoje acontece? Precisava acabar com aquela urucubaca. Sorte a dele que ninguém havia notado até hoje, mas aliás qual é o narrador ou programa de esportes que faz estatísticas sobre juizes de futebol? Esse aqui errou 23% das apitadas, aquele ali coloca a barreira a 9,30 metros em média de distância. Aquele lá distribui em média 3 cartões amarelos e 0,3 cartões vermelhos por jogo. Não. Todas as estatísticas estão voltadas para a bola e o espetáculo. Sabe-se sim o número de impedimentos, faltas e cartões, mas relativos ao time e não relativos ao juiz.

Ainda bem.

Como explicar esta bizarra coincidência e este tabu que dura exatos doze anos? Era até macabro.

Afrânio nunca havia apitado um gol na vida. 100% dos jogos dele terminaram no zero a zero aos noventa minutos. Nada. Se tinha gol, ou era impedimento, ou tinha falta no goleiro ou era com a mão. Nunca havia errado uma anulação de gol na vida. Via sempre os programas de comentários depois. Pior, quando teve Pênalti, todos foram perdidos. Bicos para fora, atrasos bizarros para goleiros, defesas espetaculares.

Até quando eu vou conseguir continuar sem que ninguém note? Será que alguém um dia vai na CBF fazer um trabalho nas minhas súmulas e vai descobrir isso? Vou entrar para a história como o Juiz zero a zero. Ninguém vai querer me escalar para jogo nenhum. Vai ser o fim da minha carreira.

Não. Vamos ser otimistas. Hoje sai um gol. Hoje vai.

Pegou a caderneta, olhou para ela, a beijou e se encaminhou ao gramado.

Chega ao campo e faz como os jogadores. Puxa um pouquinho da grama, faz o sinal da cruz e entra com o pé direito. Jogo normal. Meio de campeonato. Vale quase nada.

Tudo certo, onze de cada lado, ninguém mais no campo, inicia-se a partida.

No início do jogo, ambas as equipes se estudam, fazendo um jogo travado no meio do campo. A marcação é forte. Afrânio vê o tempo passar e nada de aparecer oportunidade de gol. 10, 20, 30 minutos do primeiro tempo. Somente dois chutes a gol, facilmente defensáveis.

38 minutos do primeiro tempo. Falta perigosa para um dos times cobrar. Parecia uma boa oportunidade. Ele conta os nove passos, marca a posição da barreira com o spray. Prende a respiração, olha tenso para todos os jogadores posicionados e finalmente apita.

O jogador se aproxima da bola e bate um chute seco. A bola atravessa pela barreira com facilidade e vai em direção ao gol, e, e, explode no travessão! As torcidas gritam uhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh, e abafa o grito seco que o juiz solta. Quase. Quase. Tá amadurecendo.

Mais nada acontece. Ele dá 3 minutos de acréscimos. Termina o primeiro tempo. Nenhuma entrevista, pois não houve nenhum lance polêmico. Vai direto ao vestiário. Cara de poucos amigos. Parece que estou fadado a nunca ouvir o grito ensurdecedor de uma torcida. A alegria dos jogadores, a comemoração do banco de reservas e sua sonhada corrida, apontando o meio de campo. Já havia sonhado com isso diversas vezes.

Voltam todos do vestiário com os ânimos reafirmados. Entrevistados, os jogadores prometem dar o melhor de si pela equipe, seguir os fundamentos do professor, respeitando o time adversário, mas sabendo da capacidade deles e ir para cima. Essa baboseira toda ensaiada que jogador de futebol fala. Afrânio queria ver era ação. Ataques contundentes, passes milimétricos, chutes indefensáveis. Afinal ele era a última autoridade em campo na defesa de um esporte que vive de gols oras.

O segundo tempo começa. As equipes parecem mais motivadas. Parece que no intervalo o resultado de outros jogos mandavam ambas as equipes para a zona de rebaixamento. Só sobrava uma alternativa: ir para cima ou morrer na praia juntos.

O jogo ficou elétrico. Várias faltas, chutes, defesas incríveis mais duas bolas na trave. O craque de uma das equipes desequilibrava o jogo agora. Em um dos lances, ele recebeu na cara do goleiro a frente do último zagueiro. O bandeira nada marca. Parece legal o lance. Ele segue em frente correndo junto com o atacante. Era agora, era agora, só que com um atraso de dois segundos sobe a bandeira. Nada resta, senão marcar impedimento. O atacante vai a loucura e parte para cima do bandeira. Afrânio vai junto, não sabendo se segura o atacante e dá-lhe uma bronca ou parte para dar um carrinho no bandeirinha também.

O jogo segue cheio de emoções até aos 44 minutos do segundo tempo. O placar do estádio confirma o final dos outros jogos da rodada. Se o empate persistir aqui, a zona de rebaixamento vira realidade para ambos os times. Todos vão para cima. Os goleiros avançam também em agonia e ficam quase na metade de seus campos de defesa. Impossível ficar na área com tanto em jogo.

Nisso, o meio campista repara o adiantado do goleiro. Será? Será. Manda um chutaço de antes do meio do campo. Afrânio vê o lance um pouco atrás do chutador. O meio campista fica parado olhando a bola subir e o goleiro começar a correr em direção a área.

Afrânio não se contém e começa correr também na mesma direção do goleiro. Todos vêem o juiz correr, e resolvem partir na mesma direção. A bola atinge o ponto mais alto da parábola e inicia a descendente tomando a direção um pouco a direita do gol. Não dá para saber se vai entrar. Não dá para saber se o goleiro chega a tempo.

Afrânio já tinha passado a marca do meio do campo e ia seguido de mais 21 jogadores, tudo o que tinha sobrado além do goleiro desesperado que já tinha partido em direção a bola.

O estádio todo se levanta. A multidão quase começa a correr na arquibancada junto com todo mundo. Tensão do estádio. Ninguém respira.

A bola desce, desce, desce, passa pelo goleiro e entra!

Gol. Gol. Goooooooooool!!!!!!!!!

O autor do gol vai ao delírio, tira a camisa para comemorar o gol de placa e corre para o alambrado da arquibancada. Afrânio nem sabe o que faz. Não sabe se apita, se aponta, se corre ou se vai comemorar o gol também.

Finalmente a urucubaca tinha ido embora! Seu emprego estava garantido.

Os 50 metros entre o gol e o centro de campo foram os melhores percorridos por sua carreira até agora. Afrânio agora se sentia completo.

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