O cabeludo foi por ali doutor!


O Felipe é um dos meus melhores amigos. Acho que não existe mais ninguém na face da terra em quem eu confie mais, além da minha esposa. Sabe aquele cara bom, bem criado e sempre disposto a ajudar em qualquer hora, não importa o quê você precise. Ele não pergunta, vai lá, ajuda e pronto.

Ele é o Natafunkie da introdução. É claro que o pacote não é perfeito pois somos todos humanos. O Felipe é excêntrico, muito excêntrico. Pior, foi punk no passado. Impossível de acreditar se você o ver hoje: ele tem uma aparência calma, passiva e com um óculos que vive caindo para a ponta do nariz. Uma tranqüilidade em pó.

Isso quando não pisam no calo dele, e o passado punk dele volta a tona. Brasília tem uns meio-retornos chamados tesourinhas, tipo trevo para evitar cruzamentos. Num dia, o Felipe tava no tomara dele (tomara era o Fusca azul metálico que ele tinha. Tomara que pegue. Tomara que ande. Tomara que vire, entendeu né?) e tinha um pequeno engarrafamento numa destas tesourinhas. Passava um carro de um lado, passava do outro. Na hora do Felipe ir, uma mulher forçou a barra para passar do outro lado quando era a vez dele. Não deu outra. O rapaz abriu a porta do carro decidido, incorporou o punk, olhou para a mulher e soltou o bordão usado por todos nós até hoje:

Olha, aqui passa um carro de um lado, passa do outro, passa de um lado, passa do outro, entendeu? Piranha!

Piranha. Da onde ele tirou isso? Saiu do nada. Pior foi que no momento da piranha, ele voltou a si e viu o que tinha feito. Quer mais? O engarrafamento piorou e eles ficaram ali parados, olhando um para o outro, por bem uns cinco minutos. O Felipe ficou mortificado. Queria sumir.

Aliás, o espírito rebelde do Felipe sempre vinha a tona por causa do Marujo, um bar que tinha perto da casa dele. O que deixava ela mais puto é que os bêbados terminavam a farra no boteco e vinham mijar nas pilastras do prédio que ele morava. Ele falou que sempre teve 3 planos e que ainda queria executar um deles:

1. Jogar uma tina de óleo quente nos hereges. Nunca executou.
2. Jogar um balde de mijo nos caras. Nunca executou também, pois acho que a mãe dele não deixou ele estocar a munição em casa.
3. Mijar o Marujo todo. Isso ele fez.

Aliás, fez com estilo. Em vez de mijar no bar e sermos presos, ele resolveu mijar no banheiro masculino todo do bar. Errou de porta e fez isso no banheiro feminino. Nunca tivemos de correr tanto.

Hoje o Felipe é um cara calmo. Tão calmo, que vive furando os programas mais animados que montamos. Toda a vez que ele bundava, falávamos que o cara ia felipar. Ih, o Felipe vai felipar hoje. Quando não queríamos fazer alguma coisa, falávamos que íamos felipar. Todo este vocabulário doido faz parte da nossa horda. Tem certas horas que acho que ninguém entende a gente mesmo.

Noutra época, ele resolveu deixar o cabelo crescer, só que cabelo do Felipe não vai para baixo quando cresce, vai para cima. Mania de pré-adulto que todos nós tínhamos de vez em quando. Fase de auto-afirmação. O Goes por exemplo tentou deixar a barba crescer por um tempo. Que barba? Ele tem a maldição da barba rala. Eu já deixei o cabelo crescer e ainda pus um brinco. Pode? Até hoje me defendo dizendo que a mulherada caia em cima. Caia nada. Mas é sempre bom mudar a cara de vez em quando.

Pois bem, o Felipe deixou o cabelo crescer e entrou numa de andar também. Não é andar daqui para ali, mas sim de sumir de repente do bar que estávamos e ir andando para casa. Isso, é porquê ele tinha pego carona com a gente. Avisar? Nem pensar. Na primeira vez a gente ficou que nem doido procurando por ele. Depois acostumamos.

Depois da fase de andar ele resolveu correr. Tipo corra Lola, corra. Saia correndo de restaurantes, bares, aonde fosse e quando desse na telha. Numa vez, o Paulinho programou de andarmos de barco a noite em Brasília. Grande programa. Nos divertimos a beca. Depois do barco, eu fui para casa com a Cy e o Paulinho, Goes, Felipe e o Roberval foram para o Roma comer alguma coisa.

Aí começou a usual brincadeira entre o Goes e o Felipe. Um jogou sal num, o outro colocou o óculos do outro no chopp, até que numa hora, o Goes resolveu jogar sal no cabelo do Felipe. Para quê? Ele resolveu sair correndo da mesa porta afora do restaurante.

O Paulinho depois do susto saiu correndo atrás dele. Lá fora, sem sinal do rapaz viu só um flanelinha que veio de encontro ao Paulinho e perguntou:

Doutor, ta atrás do cabeludo? Ele roubou a sua carteira? O Paulinho, sem perder a chance, confirmou. Roubou. Roubou sim a minha carteira. Safado. Cadê ele?

O cabeludo foi por ali doutor! Apontando o caminho para a casa do Felipe.

O Paulinho voltou para o restaurante e relaxou.

Era o Felipe.

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