Meu Chapa

Comecei a jogar tênis já velho, aos quinze anos quando me mudei do Rio para Brasília. Tinha uma quadra bem perto de casa, chamada quadra da Delícia, pois era perto de uma padaria com o mesmo nome. Nem sei se a padaria ainda existe, mas a quadra tá lá com certeza.

Volta e meia ia jogar com o meu pai e lá conheci o Fabiano, um cara que viria a ser um grande amigo meu. Ele parecia a versão pop de Jesus Cristo: louro, alto, cabelos lisos e muito compridos, diria eu quase até a bunda. A mulherada achava o cara o ó do borogodó. Estudante de literatura na UnB, acabou que ele passou a dar aulas de literatura no meu colégio. Ele sempre me chamou de meu chapa. Acho que era um termo típico da geração dele, uma logo antes da minha. Eu era um moleque perto dele. Aliás, nunca entendi como ficamos amigos: ele um cara mais velho, com muito mais cultura que eu. Bom, sempre achei que saia ganhando com nossas conversas. Adquiria mais cultura do que transmitia. Quem sabe algum dia eu ajudei ele com alguma coisa que disse?

Eu ainda não tava na faculdade. Logo depois, eu passei no vestibular e passamos a jogar mais na UnB.

Embates memoráveis. As quadras do CO (Centro Olímpico) da UnB eram muito ruins, e pareciam sair diretamente de um filme de espionagem dos anos 70. Eram as últimas instalações do Campus muito além de todas as outras instalações lá existentes. Sempre fazendo um sol de rachar, íamos para os nossos jogos. Sempre cheios de mandingas e quase nunca sérios. Também, pudera: como levar a sério um jogo quando você joga contra Jesus do outro lado de sunga, tênis e meias cano alto, sem camisa, óculos de sol, modelo John Lennon e a capa da raquete enfiada na cabeça como chapéu? Impossível. Não dava para concentrar de forma alguma. Eu lá de short branco, camisa pólo branca, cabelinho cortado, munhequeira, fazendo todos os trejeitos de tenista profissional e jogando nada. Eram jogos horrorosos, com alguns momentos inspirados. O Fabiano jogava no fundo e de vez em quando acertava algumas passagens memoráveis. Eu, querendo dar uma de Stefan Edberg, subindo a rede direto, de vez em quando acertava um voleio bom e era isso.

Bom mesmo era antes e depois da partida. Antes, íamos na Branca-de-neve, apelido dado a Variant II branca que o Fabiano tinha, para a UnB jogar, sempre discutindo artes, música e mulheres quase nunca tendo o mesmo ponto de vista, mas era tudo muito legal. Acabou que o meu gosto evoluiu mais ao longo do ano e nos encontramos melhor no futuro. Falar de mulher com o Fabiano era muito divertido. O ponto de vista dele sempre foi único e sempre aconteciam coisas do outro mundo com ele. Lembro especificamente de um amasso que ele deu numa gatinha acho que numa manilha abandonada de uma obra no CO. Coisa de louco.

Depois da partida, sempre sobrava a inexorável cervejinha para tomar no bar do CO. Lembro nitidamente da gente bebendo e conversando quando o Fabiano levanta e dá um chute numa monte de barro seco que se acumula em Brasília na época árida do ano berrando: não agüento mais este barro todo. Quero sair daqui.

Mal ele sabia, que estes foram momentos mágicos, ao menos da minha vida. Tenho ótimas lembranças de nossas longas conversas, jogos e discussões divertidas sobre artes e mulheres. Dava montes para voltar no tempo ao menos uma vez para estes dias. Um amigo com cultura e bom papo sempre faz falta.

Agora ele casou com a Martinha, um amor de menina, passou para um concurso do Rio Branco e foi removido para Washington aonde mora agora. Nos encontramos uma vez no Thanksgiving americano, visitamos todos os museus da cidade, conversamos longamente, comemos uma espetacular macarronada, tal qual o Fabiano intitulou e ouvimos música boa, como sempre.

Ah, tentamos jogar tênis, mas uma providencial chuva caiu, adiando mais um embate, que certamente entraria para os anais do tênis como uma das partidas mais ridículas da história. Sempre antes de jogarmos nos falávamos como a nossa amizade estava acima da derrota que enfiaríamos um sobre o outro. Uma balela sem fim. Se tivesse jeito de jogo de tênis terminar empatado, terminaria assim: WO duplo. Neste caso teríamos de pedir desculpas as bolas de tênis pelo sofrimento imposto.

Bons tempos.

Achei uma foto do Fabiano na internet: parece que agora ele está ou no Japão ou no Paraguai. Um dia nos encontramos novamente amigo.

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